Sucessão executiva: o comando muda em um dia. A organização, não.
Por Ricardo D'Olivar — Cientista do comportamento e criador da Governança Perceptiva™
12 de setembro de 2026 · Leitura: 11 minutos
Um processo de sucessão executiva tem uma data formal.
Há o dia em que um executivo deixa a função, outro assume e o organograma passa a refletir uma nova distribuição de autoridade.
Para os documentos societários, essa precisão é necessária.
Para o sistema humano que vai continuar tomando decisões depois dela, a transição pode ser menos instantânea.
Quem passa a decidir?
Quem ainda influencia?
O que continua igual?
O que mudou de verdade?
Onde uma discordância deve subir agora?
Quem valida uma decisão difícil?
Em que momento o novo comando deixa de ser apenas formal e passa a funcionar como referência para o restante da organização?
É nesse intervalo que uma sucessão pode estar juridicamente concluída e organizacionalmente ainda em curso.
E esse intervalo importa.
Sucessão não é apenas um evento
Durante muito tempo, parte relevante da pesquisa sobre sucessão executiva tratou a troca de CEO como um evento: existe um antes, existe um momento de mudança e existe um depois.
Mas uma revisão publicada por Kristin Berns e Patricia Klarner na Academy of Management Perspectives chamou atenção exatamente para a limitação dessa perspectiva.
Ao integrar décadas de estudos sobre sucessão, as autoras observaram que boa parte da pesquisa empírica havia adotado uma visão centrada no evento, embora a prática mostrasse a sucessão como um processo contínuo.
A diferença parece conceitual, mas muda completamente a pergunta.
Se sucessão é evento, interessa saber quem saiu, quem entrou e quais foram as consequências.
Se sucessão é processo, passa a importar também o que acontece entre uma configuração de liderança e outra.
Essa perspectiva permite observar também seleção, preparação, transição, integração, relação com o conselho, adaptação organizacional e os primeiros movimentos do sucessor.
O momento da posse continua importante.
Só deixa de ser suficiente para explicar a mudança.
A organização também reage à sucessão
Essa preocupação não é recente.
Em 1991, Stewart Friedman e Kathleen Saul estudaram reações de membros de organizações a sucessões de CEO em empresas Fortune 500.
O trabalho analisou, entre outros fatores, disrupção pós-sucessão, rotatividade gerencial e moral organizacional, a partir de respostas de 235 executivos de recursos humanos.
O ponto relevante aqui não é transformar um estudo de 1991 em explicação universal para sucessões atuais.
É reconhecer algo que às vezes desaparece quando a discussão fica concentrada no conselho e no mercado:
a organização também interpreta a troca de comando.
Ela observa de onde veio o sucessor.
Quanto tempo o antecessor permaneceu.
Por que a mudança aconteceu.
Quem parece apoiar quem.
O que o novo executivo mantém.
O que começa a alterar.
Como reage às primeiras discordâncias.
E, sobretudo, onde está a autoridade quando a situação deixa de ser simples.
Nenhum desses elementos substitui a estrutura formal.
Mas todos podem influenciar a forma como essa estrutura passa a funcionar.
O antecessor pode sair da função sem sair do sistema
Há um caso particularmente interessante em sucessões executivas: quando o CEO deixa a operação, mas permanece como presidente do conselho ou continua ocupando posição relevante na governança.
A decisão pode fazer bastante sentido.
O antigo CEO carrega conhecimento específico da organização, relações construídas ao longo de anos, memória estratégica e compreensão do negócio que não desaparecem com a troca de cargo.
Mas sua permanência também cria uma configuração diferente daquela em que o antecessor simplesmente deixa a organização.
Timothy Quigley e Donald Hambrick estudaram 181 sucessões em empresas de alta tecnologia e encontraram evidências de que, quando o ex-CEO permanecia como presidente do conselho, a discricionariedade do sucessor era menor e mudanças estratégicas posteriores tendiam a ser mais limitadas.
Seria tentador concluir que manter o antecessor é um erro.
A literatura não permite uma conclusão tão simples.
Um estudo posterior, publicado em 2023, analisando 461 empresas de Taiwan, não encontrou relação direta entre permanência de ex-CEOs no conselho e desempenho pós-sucessão. Os resultados indicaram que os efeitos dependiam das condições internas e externas da organização. Em contextos mais complexos, conhecimento e recursos do antecessor podiam adquirir maior valor para o sucessor.
Outra pesquisa, com 1.263 empresas do S&P 1500, encontrou associação entre a presença de ex-CEOs presidindo o conselho e desempenho social e ambiental superior.
Ou seja:
a permanência do antecessor não é, por definição, risco nem proteção.
É uma configuração de governança com efeitos que dependem do contexto.
E justamente por isso merece ser lida.
O problema não é haver duas figuras fortes
Em uma transição, a presença do antecessor pode ser extremamente útil.
O novo CEO pode ganhar acesso a conhecimento acumulado.
O conselho pode preservar continuidade.
Stakeholders podem perceber estabilidade.
A organização pode atravessar a mudança com menos ruptura.
O risco começa quando não está claro como o sistema está interpretando essa convivência.
Formalmente, as responsabilidades podem estar perfeitamente separadas.
Perceptivamente, perguntas podem permanecer.
Até onde vai a autonomia do novo CEO?
Em uma divergência, qual posição pesa mais?
O antecessor está ali como referência ou como instância informal de validação?
As pessoas continuam procurando quem ocupava o cargo antes?
Uma decisão difícil precisa da aprovação formal de uma pessoa e da aprovação implícita de outra?
Essas perguntas não significam que existe conflito.
Significam apenas que autoridade formal e autoridade percebida não são necessariamente a mesma variável.
E uma sucessão pode mudar a primeira antes de reorganizar completamente a segunda.
Os primeiros meses também são parte da sucessão
Shenghui Ma, David Seidl e Stéphane Guérard analisaram a literatura sobre aquilo que chamam de processo pós-sucessório do CEO.
A revisão trata justamente do período inicial de mandato do novo executivo e de como ocorre a construção de adequação entre CEO, organização e ambiente.
Esse período importa porque o sucessor não recebe apenas um cargo.
Recebe uma organização já estruturada.
Relações existentes.
Expectativas anteriores.
Pessoas cuja trajetória foi construída sob outra liderança.
Processos decisórios que desenvolveram hábitos.
Áreas acostumadas a determinados caminhos para fazer uma informação chegar ao topo.
E uma interpretação prévia sobre como poder, discordância e validação funcionam naquele ambiente.
A chegada de um novo CEO não apaga essas rotinas.
Ela começa a testá-las.
Algumas continuarão.
Outras serão modificadas.
Algumas perderão sentido rapidamente.
E outras podem sobreviver por bastante tempo mesmo depois que a estrutura formal que lhes deu origem deixou de existir.
É aí que sucessão deixa de ser somente escolha de pessoa e passa a ser também reorganização de sistema.
A troca de comando também muda sinais
Na leitura da Governança Perceptiva™, uma sucessão produz uma concentração particularmente alta de sinais.
Quem foi escolhido.
De onde veio.
Como foi anunciado.
O que o antecessor fará depois.
Quem permanece no conselho.
Quem acompanha o novo CEO nas primeiras decisões.
O que é mantido.
O que é alterado.
Como o novo comando reage quando aparece o primeiro problema relevante.
Cada elemento pode ser perfeitamente justificável isoladamente.
Mas o sistema não recebe esses elementos isoladamente.
Ele constrói uma leitura.
E essa leitura pode afetar previsibilidade.
Isso não significa que exista uma interpretação correta que deva ser imposta pela liderança.
Significa que há uma diferença entre o que o desenho pretende sinalizar e aquilo que diferentes atores passam a considerar provável a partir dele.
Uma transição pensada como continuidade pode ser lida como ausência de autonomia.
Uma mudança desenhada para aumentar autonomia pode ser interpretada como ruptura.
A permanência do antecessor pode transmitir segurança para uma parte da organização e produzir dúvida sobre o centro real de decisão para outra.
A entrada de alguém externo pode significar renovação ou desconhecimento do sistema, dependendo de quem está lendo.
Nenhuma dessas leituras pode ser presumida de fora.
É exatamente por isso que precisam ser observadas.
O risco humano aparece quando o sistema começa a se ajustar à leitura
Na Governança Perceptiva™, o interesse não está em saber se as pessoas “gostaram” da sucessão.
Também não está em realizar pesquisa de clima sobre o novo CEO.
O que interessa é outra coisa:
o comportamento do sistema mudou em resposta à leitura que está sendo construída?
Por exemplo:
informações importantes passaram a percorrer caminhos diferentes?
determinadas decisões começaram a esperar validações que formalmente não seriam necessárias?
o contraditório passou a ser direcionado a outra instância?
lideranças intermediárias estão aguardando maior clareza antes de decidir?
o sucessor está sendo tratado como centro efetivo da decisão ou ainda como parte de uma transição?
o antecessor continua recebendo demandas que formalmente deveriam ter mudado de endereço?
Esses movimentos podem ser temporários e perfeitamente normais.
Uma organização precisa de algum tempo para reorganizar referências.
A questão não é impedir a adaptação.
É saber quando uma adaptação começa a produzir um padrão relevante para risco e decisão.
Cinco transições podem estar acontecendo ao mesmo tempo
A partir da literatura sobre sucessão e da lente da Governança Perceptiva™, há pelo menos cinco movimentos que considero úteis observar.
1. Transição de autoridade formal
É a mais visível.
Quem passa a possuir determinado poder de decisão segundo estatutos, mandatos, estruturas e responsabilidades.
Normalmente é também a camada mais bem documentada.
2. Transição de autoridade percebida
É menos evidente.
Quem o sistema reconhece, na prática, como referência quando surge ambiguidade, pressão ou desacordo.
Essa transição pode acompanhar rapidamente a mudança formal ou levar mais tempo.
3. Transição dos fluxos de informação
Mudanças no topo podem modificar quais informações chegam, por quais caminhos e em que momento.
Pessoas aprendem rapidamente quais assuntos encontram abertura e quais encontram resistência.
Uma sucessão pode alterar esse aprendizado.
4. Transição do contraditório
O sistema também precisa descobrir como a nova liderança reage à discordância.
Não basta existir autorização formal para discordar.
As primeiras respostas do novo comando ajudam a construir previsibilidade sobre o custo de fazê-lo.
5. Transição das validações
Algumas organizações desenvolvem dependências informais de determinadas pessoas.
Quando essas pessoas mudam de posição, o processo pode continuar existindo por hábito.
Uma das perguntas mais úteis em uma sucessão é identificar se decisões continuam procurando antigos centros de validação mesmo depois que a autoridade formal foi transferida.
Essas cinco transições não constituem uma taxonomia universal da literatura sobre sucessão.
São uma síntese analítica produzida a partir dessa literatura e da Governança Perceptiva™.
E servem para tornar mais visível algo que o organograma sozinho não consegue mostrar.
Continuidade não é o problema
É importante fazer essa distinção.
Continuidade pode ser um ativo.
Conhecimento acumulado pode proteger a empresa.
Preservar relações pode reduzir desorganização.
Manter o antigo CEO próximo pode oferecer ao sucessor acesso a experiência que levaria anos para reconstruir.
A literatura recente mostra justamente que os efeitos da permanência do antecessor dependem do contexto.
O problema, portanto, não é continuidade.
Também não é ruptura.
O problema é ambiguidade estruturalmente relevante que o sistema precisa resolver por conta própria.
Quando não está claro onde termina uma influência e começa outra, as pessoas constroem formas práticas de lidar com isso.
Esperam.
Consultam mais alguém.
Levam menos risco.
Testam o novo centro de decisão.
Mantêm canais antigos.
E essas adaptações podem começar a interferir na qualidade e na velocidade das decisões antes que exista qualquer indicador formal apontando problema.
A sucessão pode estar concluída e ainda estar acontecendo
Conselhos precisam tomar decisões formais.
Definir sucessores.
Estruturar mandatos.
Estabelecer papéis.
Planejar passagem de conhecimento.
Comunicar mercado e organização.
Nada na Governança Perceptiva™ substitui esse trabalho.
A questão está no que vem junto com ele.
Uma mudança no topo reorganiza mais do que cargos.
Ela reorganiza expectativas sobre autoridade, reação, autonomia, continuidade e risco.
Por isso, talvez a pergunta final de uma sucessão não devesse ser apenas:
“A transferência de comando foi concluída?”
Talvez valha acrescentar outra:
“O sistema já entendeu onde está o comando agora?”
Porque uma organização pode atualizar o organograma em um dia.
A previsibilidade do sistema pode levar mais tempo.
E é nesse intervalo que parte do risco humano da sucessão começa a se tornar observável.
Referências
BERNS, K. V. D.; KLARNER, P. A Review of the CEO Succession Literature and a Future Research Program. Academy of Management Perspectives, 31(2), 83–108, 2017. DOI: 10.5465/amp.2015.0183.
D’OLIVAR, R. Perceptive Governance: A Proposal for a New Field in the Anticipation of Human Risk in Organizational Systems. SSRN, 2026. DOI: 10.2139/ssrn.6271361.
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Ricardo D'Olivar é cientista do comportamento, autor de A Arquitetura da Percepção e criador da Governança Perceptiva™, campo dedicado à leitura de como sinais humanos afetam previsibilidade, risco e valor em sistemas de decisão. Fundador da Clarear.Org e Professor na FIA Business School.