Risco humano em sistemas de decisão: o que acontece antes de aparecer nos números

Por Ricardo D'Olivar

As organizações aprenderam a monitorar riscos financeiros, operacionais, jurídicos e reputacionais com um grau crescente de sofisticação.

Criaram auditorias, controles, políticas, matrizes, indicadores e estruturas de governança para identificar desvios e reduzir incerteza.

Mas uma parte relevante do risco começa antes que qualquer indicador mude.

Ela aparece quando pessoas passam a silenciar informações, adiar decisões, evitar discordâncias, deslocar conflitos para os bastidores ou reagir de forma menos previsível em contextos de pressão.

Os números ainda podem parecer normais.

O sistema, não.

É nesse intervalo que surge o que, na Governança Perceptiva™, chamamos de risco humano em sistemas de decisão.

O que é risco humano em sistemas de decisão?

Na lente da Governança Perceptiva™, risco humano em sistemas de decisão é a possibilidade de que sinais, padrões e respostas humanas em posições ou fóruns centrais de decisão alterem a previsibilidade do sistema, influenciem escolhas e produzam efeitos sobre risco e valor antes que essas alterações sejam capturadas pelos indicadores tradicionais.

Isso não significa que pessoas sejam um “problema” a ser corrigido.

Também não significa avaliar personalidade, competência ou caráter de executivos.

O objeto é outro.

A pergunta não é:

“Quem é o problema?”

A pergunta é:

“O que o sistema começou a fazer diante dos sinais que está recebendo?”

Essa mudança de perspectiva é importante porque desloca a análise do indivíduo para o comportamento emergente do sistema.

O risco pode existir antes de virar ocorrência

A gestão de riscos tradicional não ignora fatores humanos.

A própria ISO 31000 inclui fatores humanos e culturais entre os elementos relevantes para a gestão de riscos e defende sua integração à governança, à estratégia e à tomada de decisão.

O problema é que muitos mecanismos formais funcionam melhor quando o risco já pode ser documentado, classificado, registrado ou comparado.

Alguns sinais aparecem antes disso.

Uma pauta sensível começa a subir mais tarde.

Uma discordância que antes aparecia na reunião migra para conversas privadas.

Executivos começam a proteger excessivamente suas posições.

Decisões ficam mais lentas sem que ninguém consiga explicar exatamente por quê.

Uma liderança acredita estar transmitindo segurança, enquanto o restante do sistema começa a reagir com cautela.

Nenhum desses sinais isoladamente prova que existe um problema.

Mas padrões recorrentes podem indicar que alguma coisa mudou na forma como o sistema está lendo e reagindo às posições centrais de decisão.

O risco não é invisível.

Ele apenas ainda não entrou no enquadramento tradicional.

Quando o sistema começa a se proteger

Há quatro manifestações particularmente relevantes:

Decisão: escolhas começam a ser postergadas, responsabilidades ficam difusas ou determinados assuntos deixam de chegar ao fórum adequado no momento adequado.

Dissenso: discordâncias desaparecem da sala, consensos se tornam excessivamente rápidos ou o tensionamento passa a acontecer predominantemente nos bastidores.

Exposição: surge distância entre o que é compreendido internamente e o que é sinalizado externamente, ampliando possibilidade de ruído reputacional.

Previsibilidade: as pessoas deixam de saber como posições centrais reagirão diante de pressão, conflito ou informação adversa.

É importante não transformar qualquer silêncio ou atraso em evidência de risco.

Governança séria não funciona por caça a sinais isolados.

O que interessa é repetição, convergência e mudança de padrão.

Silêncio não é necessariamente alinhamento

Uma reunião sem conflito pode significar que todos concordam.

Pode também significar que discordar se tornou custoso.

Elizabeth Morrison e Frances Milliken denominaram organizational silence o fenômeno coletivo em que informações sobre problemas potenciais deixam de ser comunicadas porque se forma uma percepção compartilhada de que falar é pouco útil ou arriscado.

A pesquisa de Amy Edmondson sobre segurança psicológica chegou a outro ponto relevante: equipes em que existe maior segurança para assumir riscos interpessoais apresentam maior comportamento de aprendizagem.

As duas linhas de pesquisa tratam de fenômenos diferentes, mas ajudam a compreender uma mesma questão de governança:

informação disponível não é necessariamente informação que chega à decisão.

Em sistemas decisórios complexos, saber o que não está chegando pode ser tão importante quanto analisar o que está no relatório.

O risco também pode existir quando todos estão satisfeitos com a decisão

Um dos problemas mais incômodos da decisão coletiva é que confiança no processo não garante qualidade da decisão.

Em um experimento publicado em 2021 com 141 membros de conselhos de organizações holandesas, Tessa Coffeng e colegas distribuíram informações de forma assimétrica entre os participantes.

Para chegar à melhor alternativa, os membros precisavam compartilhar e integrar as informações que cada um possuía.

Apenas cerca de um quinto dos grupos escolheu a melhor alternativa.

Mesmo assim, os participantes demonstraram satisfação com o processo decisório.

Esse tipo de evidência é relevante porque mostra que uma sala pode parecer funcional para quem está dentro dela e, ainda assim, não estar utilizando adequadamente a informação disponível.

O problema não é incompetência.

É dinâmica decisória.

Dissenso pode ser um ativo de governança

Discordância não é automaticamente conflito improdutivo.

Em pesquisa experimental com profissionais e gestores, Stefan Schulz-Hardt e colegas verificaram que a presença de dissenso genuíno reduziu a tendência de buscar apenas informações que confirmavam a alternativa inicialmente preferida pelo grupo.

Isso não significa que organizações devam produzir conflito artificial.

Significa que consenso excessivamente confortável não deve ser confundido com qualidade decisória.

Quando discordâncias legítimas deixam de aparecer, o sistema perde uma fonte importante de teste de realidade.

Em ambientes de alta decisão, o objetivo não deveria ser eliminar tensão.

Deveria ser impedir que a tensão desapareça dos lugares onde ela é necessária e reapareça apenas depois, quando a decisão já foi tomada.

Risco humano não é sinônimo de risco cibernético

A expressão “human risk” também aparece com frequência em cibersegurança.

Nesse contexto, normalmente está associada a comportamentos que aumentam exposição a ataques, descumprimento de controles, phishing, engenharia social e outras práticas relacionadas à segurança da informação.

O uso aqui é diferente.

Risco humano em sistemas de decisão trata de como comportamentos e sinais humanos modificam a dinâmica de decisão, a circulação de informação, o dissenso, a exposição e a previsibilidade organizacional.

A qualificação “em sistemas de decisão” é deliberada.

Ela delimita o objeto.

Por que previsibilidade importa

Previsibilidade não significa rigidez.

Uma liderança previsível não é uma liderança que reage sempre da mesma maneira.

É uma liderança cuja lógica de reação é reconhecível o suficiente para que o sistema consiga decidir, discordar, informar e agir sem precisar gastar energia excessiva tentando antecipar o humor ou a resposta de quem ocupa posições centrais.

Quando essa previsibilidade diminui, o sistema se adapta.

Algumas pessoas passam a falar menos.

Outras acumulam evidências antes de levar um problema ao topo.

Decisões são adiadas.

Informações são suavizadas.

Responsabilidades são redistribuídas informalmente.

O sistema começa a se proteger antes que alguém declare oficialmente que existe um problema.

É por isso que um dos princípios da Governança Perceptiva™ é:

Sistemas complexos não precificam intenção. Precificam previsibilidade.

Boa intenção não neutraliza leitura sistêmica.

Onde esse risco costuma ganhar relevância

O risco humano pode existir em qualquer estrutura decisória, mas tende a se tornar especialmente relevante quando a combinação entre incerteza, pressão e consequência aumenta.

É o caso de sucessões de liderança, processos de M&A, decisões estratégicas sob forte pressão, exposição pública, mudanças bruscas de contexto e fóruns em que poucos indivíduos concentram capacidade elevada de decisão.

Em uma sucessão, por exemplo, o risco não está apenas em escolher a pessoa errada.

Pode estar também na perda de previsibilidade enquanto a escolha ainda não aconteceu.

Em uma integração pós-aquisição, o valuation pode estar correto e a lógica financeira permanecer intacta, enquanto o sistema começa a responder com proteção, silêncio e postergação.

Em uma situação de exposição reputacional, o problema pode não estar na narrativa pública inicialmente escolhida, mas na distância crescente entre o que o topo acredita estar sinalizando e a maneira como diferentes partes do sistema passam a interpretar suas decisões.

Esses contextos são diferentes.

A lógica de leitura é a mesma:

observar o comportamento do sistema antes de procurar um culpado.

Onde entra a Governança Perceptiva™

A Governança Perceptiva™ foi criada por Ricardo D'Olivar como um campo complementar à governança tradicional.

Seu objeto é observar e estruturar como sinais humanos em posições centrais de decisão afetam previsibilidade, risco e valor antes que seus efeitos se tornem visíveis nos indicadores tradicionais.

Ela não substitui auditoria, compliance, gestão de riscos, RH, psicologia organizacional ou consultoria estratégica.

Também não é avaliação de liderança.

É uma camada de leitura.

Dentro desse campo, o Delta Perceptivo funciona como indicador do desalinhamento entre aquilo que um fórum decisório acredita estar sinalizando e a leitura que o sistema constrói em resposta.

A análise não procura descobrir qual executivo “está errado”.

Procura identificar onde a distância entre intenção e reação sistêmica está se tornando relevante.

Da percepção individual ao risco sistêmico

A Governança Perceptiva™ deriva conceitualmente da Arquitetura da Percepção™, campo desenvolvido por Ricardo D'Olivar para organizar como a percepção humana se forma a partir de diferentes camadas de sinais.

Na Arquitetura da Percepção™, o foco está na relação entre intenção e impacto no nível individual.

Na Governança Perceptiva™, a pergunta muda de escala.

Não se pergunta apenas como alguém está sendo percebido.

Pergunta-se:

o que o sistema está fazendo com essa percepção?

É essa mudança de escala que transforma percepção em questão de governança.

O que uma organização ganha ao enxergar isso antes?

O principal ganho não é descobrir antecipadamente quem deve ser substituído ou qual decisão precisa ser tomada.

Essa não é a função da Governança Perceptiva.

O ganho é tempo decisório.

Quando uma organização consegue perceber onde um padrão de risco está começando a se formar, ela pode investigar melhor antes de responder ao problema errado.

Isso é particularmente importante porque sistemas sob pressão frequentemente tentam corrigir a consequência mais visível.

Trocam pessoas.

Mudam estruturas.

Reorganizam processos.

Alteram narrativas.

Nem sempre o problema estava ali.

Antes de corrigir, é preciso enxergar.

Perguntas frequentes

O que é risco humano em sistemas de decisão?

Na Governança Perceptiva™, é o risco associado à forma como sinais e comportamentos humanos em posições ou fóruns centrais modificam previsibilidade, circulação de informação e dinâmica decisória antes que seus efeitos apareçam nos indicadores tradicionais.

Risco humano significa que pessoas são o problema?

Não. O campo não classifica indivíduos como riscos. A análise se concentra nos efeitos sistêmicos e nos padrões coletivos de reação.

Governança Perceptiva avalia líderes?

Não. Governança Perceptiva™ não é instrumento de avaliação individual, perfil psicológico ou feedback de liderança. Seu objeto é o sistema decisório.

Qual é a relação entre risco humano e silêncio organizacional?

Silêncio pode ser uma das manifestações observáveis de alteração do sistema, especialmente quando informações relevantes deixam de chegar aos fóruns adequados. Isoladamente, porém, silêncio não é prova de risco.

Qual é a diferença entre Governança Perceptiva e gestão de riscos tradicional?

A Governança Perceptiva™ não substitui a gestão de riscos. Ela propõe uma camada complementar de leitura para fenômenos humanos que podem surgir antes de serem capturados pelas métricas e registros formais.

O que é Delta Perceptivo?

É o indicador, dentro da Governança Perceptiva™, que representa o desalinhamento entre a intenção de sinal de um fórum decisório e a leitura que o sistema constrói em resposta.

Sobre o autor

Ricardo D'Olivar é cientista do comportamento, autor de A Arquitetura da Percepção e criador da Governança Perceptiva™, campo dedicado à leitura de como sinais humanos afetam previsibilidade, risco e valor em sistemas de decisão.

Há mais de três décadas atua com desenvolvimento, comportamento humano e lideranças.

Fundador da Clarear.Org e Prof. FIA Business School.

Referências

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D'OLIVAR, R. Perceptive Governance: A Proposal for a New Field in the Anticipation of Human Risk in Organizational Systems. SSRN, 2026. DOI: 10.2139/ssrn.6271361.

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