Quando o dissenso sai da sala: o risco das decisões que parecem alinhadas demais
Por Ricardo D'Olivar — Cientista do comportamento e criador da Governança Perceptiva™
4 de setembro de 2026 · Leitura: 12 minutos
A reunião terminou antes do horário.
A decisão foi aprovada.
Ninguém levantou uma objeção relevante. Não houve conflito.
Para quem olha de fora, pode parecer um excelente sinal de maturidade.
Talvez seja.
Mas existe outra possibilidade que merece atenção: as divergências podem não ter desaparecido. Podem apenas ter mudado de lugar.
Elas aparecem depois, em conversas individuais. No corredor. Em mensagens privadas. Em reuniões paralelas. Ou semanas mais tarde, quando alguém começa a explicar por que aquela decisão “nunca pareceu uma boa ideia”.
Esse deslocamento interessa à governança porque há uma diferença importante entre um sistema que chegou ao consenso e um sistema que deixou de produzir dissenso no lugar em que a decisão acontece.
Não são a mesma coisa.
Silêncio não prova alinhamento
É preciso começar pela distinção mais básica: uma sala silenciosa não é, por definição, uma sala em risco.
Pode simplesmente haver concordância. Pode haver informação suficiente, convergência legítima e uma decisão relativamente óbvia.
O que merece atenção é quando o silêncio deixa de ser circunstancial e começa a fazer parte de um padrão.
A pessoa que discordava com frequência deixa de fazê-lo. Perguntas difíceis passam a ser formuladas de maneira mais branda. Objeções surgem depois da reunião, mas não durante ela. Assuntos sensíveis exigem cada vez mais conversas prévias antes de chegar ao fórum formal.
Às vezes, a decisão é aprovada sem resistência e volta à mesa algumas semanas depois porque alguma coisa não se resolveu na execução.
Em 2000, Elizabeth Morrison e Frances Milliken deram um nome a um fenômeno coletivo relacionado a isso: organizational silence.
No artigo Organizational Silence: A Barrier to Change and Development in a Pluralistic World, as autoras descrevem condições em que informações sobre problemas potenciais deixam de ser comunicadas porque se forma a percepção compartilhada de que falar pode ser inútil ou imprudente.
A contribuição delas é especialmente interessante porque desloca a questão do comportamento isolado de uma pessoa para uma dinâmica coletiva.
A informação pode existir.
Pode até estar distribuída pela organização.
E ainda assim não chegar ao lugar em que poderia mudar uma decisão.
O dissenso faz parte do funcionamento de um conselho
Conselhos existem, entre outras razões, porque decisões complexas se beneficiam de perspectivas que não são idênticas.
Se todos chegam à sala vendo o mesmo problema, com a mesma informação, pela mesma lente e com a mesma interpretação, parte do valor da estrutura colegiada desaparece.
Uma revisão integrativa publicada inicialmente em 2024 por Aira Eirola, Pieter-Jan Bezemer e Stephan Reinhold ajuda a mostrar como essa discussão é mais complexa do que parece.
Os pesquisadores analisaram 73 artigos sobre dissenso em conselhos, publicados entre 1997 e 2023, em 53 periódicos acadêmicos.
Encontraram três grandes maneiras pelas quais a literatura vinha observando o fenômeno: dissenso expresso por voto, dissenso como presença de perspectivas divergentes e dissenso como comportamento dentro e ao redor da sala do conselho.
Talvez o aspecto mais útil da revisão seja justamente o fato de ela não oferecer uma receita.
Não existe uma quantidade universal de dissenso que automaticamente transforme um conselho em um conselho melhor.
Isso muda a pergunta.
Em vez de:
“Nosso conselho discorda o suficiente?”
talvez seja mais útil perguntar:
“Quando existe uma discordância relevante, ela consegue aparecer aqui?”
O lugar onde se discorda também importa
Em 2023, Helen Pernelet e Niamh Brennan publicaram um estudo incomum sobre interação em conselhos.
Em vez de depender apenas de questionários ou relatos posteriores, observaram e gravaram em áudio e vídeo três conselhos ao longo de nove reuniões.
O material analisado continha 418 perguntas e 510 respostas.
Havia ainda uma particularidade: parte das reuniões acontecia em público e parte em ambiente privado.
O comportamento não foi igual.
As pesquisadoras encontraram diferenças na intensidade do dissenso e nos tipos de resposta conforme o contexto. O desafio construtivo dos conselheiros não executivos apareceu de forma mais contida na presença do público, enquanto determinadas interações se tornavam mais substantivas em ambiente privado.
Três conselhos não autorizam qualquer conclusão universal sobre todos os boards.
Mas o estudo deixa visível algo importante: o contexto em que a decisão acontece modifica a forma como o dissenso consegue se manifestar.
Uma organização pode ter pessoas perfeitamente capazes de discordar e, ao mesmo tempo, possuir fóruns em que determinadas discordâncias deixaram de aparecer.
Isso é muito diferente de simplesmente ter “gente que não sabe falar”.
O problema pode ser a informação que não entrou na decisão
Existe outra possibilidade ainda mais desconfortável: ninguém perceber que alguma coisa importante ficou de fora.
Em 2021, Tessa Coffeng e colegas fizeram um experimento com 141 membros de conselhos de organizações holandesas.
As informações necessárias para identificar a melhor alternativa foram distribuídas de maneira assimétrica entre os participantes.
Ninguém possuía sozinho tudo o que era necessário. O grupo precisava compartilhar e combinar adequadamente aquilo que cada membro sabia.
Apenas cerca de um quinto dos grupos escolheu a alternativa objetivamente superior.
Mesmo assim, os participantes demonstraram satisfação com o processo decisório.
É um resultado incômodo por uma razão simples:
um processo pode parecer bom para as pessoas que participam dele e ainda assim utilizar mal a informação disponível.
A sensação de que a reunião funcionou não basta para demonstrar qualidade decisória.
Da mesma forma, ausência de tensão não demonstra que todas as perspectivas relevantes entraram na decisão.
Discordância também pode funcionar como teste de realidade
Em 2002, Stefan Schulz-Hardt, Marc Jochims e Dieter Frey investigaram como grupos buscam informação depois que seus integrantes já possuem uma alternativa preferida.
Participaram do experimento 201 empregados e gestores de organizações públicas e privadas.
Entre as condições analisadas estavam grupos com dissenso genuíno e grupos em que alguém desempenhava a função de “advogado do diabo”.
A heterogeneidade real de preferência foi mais eficaz em reduzir a busca confirmatória por informação do que a oposição criada apenas como técnica.
Há uma implicação útil aqui.
Criar o ritual da discordância não é necessariamente o mesmo que ter discordância real.
Dissenso não é simplesmente escolher alguém para contrariar o grupo.
Sua função mais valiosa pode estar justamente em trazer para a decisão uma leitura que não nasceu da alternativa já preferida pela maioria.
E se o dissenso não desaparecer, apenas migrar?
É neste ponto que a Governança Perceptiva™ acrescenta outra camada à discussão.
Quando uma divergência deixa de aparecer no fórum formal, não basta perguntar se ela foi resolvida.
É preciso observar se ela reapareceu em outro lugar.
A decisão é unânime, mas executivos procuram individualmente o CEO depois da reunião.
A premissa não é questionada na sala, mas é intensamente contestada em conversas privadas.
A objeção não aparece enquanto a decisão ainda está aberta, mas retorna durante a execução.
Gestores concordam formalmente e depois retardam silenciosamente aquilo que foi aprovado.
Determinados temas só chegam ao conselho depois de extensas negociações sobre como poderão ser apresentados.
Separadamente, nenhum desses comportamentos prova que exista risco.
Mas, quando começam a convergir, mostram algo que vale observar: a sala registra alinhamento enquanto o sistema continua produzindo discordância, proteção, postergação ou resistência fora dela.
Essa é uma distinção importante dentro da Governança Perceptiva™.
O campo não procura descobrir a personalidade de quem falou ou se calou. Também não tenta adivinhar a intenção individual.
O objeto é observar o que o sistema passa a fazer diante das condições de decisão que recebeu.
É aí que o dissenso pode deixar de cumprir sua função sem necessariamente desaparecer.
Ele sai do conselho e vai para o corredor.
Sai do comitê e vai para o WhatsApp.
Sai da reunião executiva e vai para conversas bilaterais.
Sai do momento em que a decisão ainda poderia ser alterada e reaparece quando a implementação já começou.
Formalmente, houve alinhamento.
Sistemicamente, a divergência continua ativa.
E existe uma diferença relevante entre discordar antes da decisão e manifestar resistência depois dela.
No primeiro caso, o dissenso participa do processo decisório.
No segundo, passa a fazer parte da reação do sistema à decisão tomada.
É aqui que o silêncio pode começar a entrar no território do risco humano em sistemas de decisão.
Segurança psicológica ajuda a explicar parte do fenômeno. Não tudo.
É praticamente impossível falar sobre silêncio nas organizações sem chegar ao trabalho de Amy Edmondson.
Em seu estudo clássico de 1999, realizado com 51 equipes de uma empresa industrial, Edmondson definiu segurança psicológica de equipe como uma crença compartilhada de que aquele ambiente é seguro para assumir riscos interpessoais.
A pesquisa encontrou associação entre segurança psicológica e comportamentos de aprendizagem.
É uma contribuição fundamental.
Mas seria um erro transformar qualquer silêncio em falta de segurança psicológica.
Uma pessoa pode não falar porque concorda.
Pode não possuir informação relevante.
Pode considerar a discussão prematura.
Pode perceber custo político.
Pode acreditar que aquela decisão, na prática, já foi tomada.
Pode entender que aquele fórum não é o lugar adequado.
Ou pode ter aprendido, pelas experiências anteriores, que determinadas objeções raramente modificam o resultado.
Tentar inferir motivação individual a partir do silêncio nos coloca rapidamente em terreno especulativo.
A Governança Perceptiva™ faz outra escolha.
Em vez de perguntar:
“Por que aquela pessoa não falou?”
a pergunta passa a ser:
“O que aconteceu com o fluxo de dissenso neste sistema?”
Isso reduz a tentação de transformar uma questão de governança em psicologização.
Cinco sinais que merecem leitura
Não como diagnóstico.
Como padrão.
1. Discordância tardia
Objeções importantes aparecem principalmente quando a decisão formal já foi tomada.
2. Bastidores mais ricos que a sala
As conversas realmente substantivas acontecem antes ou depois do fórum decisório.
3. Consenso rápido demais para a complexidade do tema
Questões que exigiriam exploração de alternativas começam a atravessar o fórum quase sem tensionamento.
4. Mudança na qualidade das perguntas
As pessoas continuam participando, mas temas sensíveis passam a ser explorados de maneira progressivamente mais cautelosa.
5. Concordância formal e resistência operacional
A decisão é aprovada, mas depois surgem postergação, baixa adesão, proteção ou renegociações recorrentes.
Nenhum desses sinais deveria ser lido sozinho.
O que interessa é repetição, convergência e mudança de padrão.
Harmonia e previsibilidade são coisas diferentes
Esse ponto costuma ser confundido.
Harmonia descreve uma qualidade da interação.
Previsibilidade descreve uma qualidade do sistema.
Um conselho pode ser cordial e pouco previsível.
Os membros podem se respeitar, trabalhar juntos há anos e evitar confrontos improdutivos, enquanto executivos abaixo deles não sabem como uma informação adversa será recebida.
Também pode acontecer o contrário.
Uma sala com debates intensos pode ser altamente previsível porque todos sabem que discordar faz parte do processo e não altera arbitrariamente a posição de quem participa.
Por isso, a Governança Perceptiva™ não procura medir “quanto conflito existe”.
Interessa saber se o sistema ainda consegue trazer informação contrária para o lugar e para o momento em que ela pode modificar a decisão.
Essa é outra questão.
Quando, então, o silêncio vira risco?
Não quando alguém deixa de falar.
Não porque uma reunião terminou sem conflito.
Muito menos porque houve unanimidade.
O silêncio começa a ganhar relevância para a governança quando passa a integrar um padrão em que informações, discordâncias ou questionamentos relevantes deixam de chegar ao fórum adequado enquanto ainda poderiam influenciar a decisão.
Às vezes, a mudança parece pequena.
Uma pergunta que deixou de ser feita.
Uma objeção que foi adiada.
Uma pauta que passou a ser cuidadosamente preparada antes de subir.
Uma discussão que ficou melhor no corredor do que dentro da sala.
Mas o efeito pode ser maior do que a aparência sugere.
Porque uma organização não precisa perder informação para deixar de utilizá-la.
Basta que ela chegue tarde. Ou no lugar errado.
Uma pergunta mais útil para a governança
Diante de um conselho excessivamente tranquilo, talvez a pergunta não devesse ser:
“Por que ninguém está discordando?”
Ela já pressupõe que exista um problema.
Uma pergunta mais precisa seria:
“Onde as discordâncias relevantes estão aparecendo?”
Se a resposta continuar sendo “aqui”, provavelmente o sistema está fazendo o que deveria fazer.
Mas, se ela começar a ser “depois”, “em particular”, “fora da reunião” ou “quando já estamos executando”, alguma coisa mudou e merece ser lida.
Um conselho não se torna mais maduro simplesmente porque discute menos.
Torna-se mais capaz de decidir quando consegue manter o dissenso relevante no mesmo lugar e no mesmo tempo em que a decisão ainda está aberta.
Por isso, quando observo silêncio em um sistema decisório, o dado mais interessante não é necessariamente a ausência de fala.
É a localização do desacordo.
Sobre o autor
Ricardo D'Olivar é cientista do comportamento, autor de A Arquitetura da Percepção e criador da Governança Perceptiva™, campo dedicado à leitura de como sinais humanos afetam previsibilidade, risco e valor em sistemas de decisão.
Há mais de três décadas atua com desenvolvimento, comportamento humano e lideranças.
Fundador da Clarear.Org e Professor FIA Business School.
Referências
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