Por que a competência técnica não basta: o papel da percepção na decisão executiva
Por Ricardo D'Olivar — Cientista do comportamento e criador da Governança Perceptiva™
20 de fevereiro de 2026 · Leitura: 9 minutos
Em decisões executivas complexas, competência técnica é frequentemente uma condição indispensável.
Mas ela não esgota o processo decisório.
Uma decisão pode estar sustentada por dados consistentes, análise rigorosa e domínio técnico e, ainda assim, ser tomada dentro de um sistema humano que interpreta informações, constrói expectativas, atribui significado e reage ao que acontece.
Décadas de pesquisa sobre julgamento e decisão mostram que pessoas utilizam heurísticas ao decidir sob incerteza. A literatura sobre emoção e decisão mostra, por sua vez, que estados afetivos podem influenciar julgamentos e escolhas.
Isso não torna a decisão executiva irracional.
Tampouco reduz a importância da análise técnica.
Mostra apenas que qualidade técnica e funcionamento humano do sistema são dimensões diferentes da mesma decisão.
É nesse encontro que a percepção passa a importar.
O mito da decisão puramente técnica
Existe uma imagem bastante sedutora da decisão executiva.
Dados entram.
Especialistas analisam.
Alternativas são comparadas.
A melhor opção é escolhida.
Em muitos contextos, esse processo é indispensável.
O problema começa quando ele é tratado como descrição completa de como pessoas realmente decidem.
Amos Tversky e Daniel Kahneman demonstraram que julgamentos sob incerteza podem recorrer a heurísticas como representatividade, disponibilidade e ancoragem. Essas estratégias cognitivas são frequentemente úteis, mas também podem produzir erros sistemáticos.
Décadas depois, Jennifer Lerner, Ye Li, Piercarlo Valdesolo e Karim Kassam, ao revisarem a literatura sobre emoção e decisão, mostraram que emoções podem exercer influência relevante, previsível e às vezes benéfica ou prejudicial sobre julgamentos e escolhas.
Nada disso significa que executivos não utilizem dados.
Significa que dados são processados por pessoas.
E pessoas decidem dentro de contextos sociais, históricos e organizacionais.
A competência técnica melhora a qualidade da análise.
Ela não elimina aquilo que acompanha qualquer julgamento humano.
O que significa “dimensão perceptiva” na decisão executiva
Neste artigo, uso dimensão perceptiva como uma síntese analítica derivada da Arquitetura da Percepção™ e da Governança Perceptiva™.
Não se trata de uma categoria universal da literatura sobre tomada de decisão.
É uma lente para observar algo específico: como leitura, sinalização e interpretação interagem com uma decisão tecnicamente estruturada.
Essa dimensão pode ser observada em três planos.
Plano 1: como o decisor lê o ambiente
Nenhuma decisão começa apenas nos dados.
Antes de agir, o decisor precisa construir uma interpretação do contexto.
O que está acontecendo?
Que informação merece maior peso?
Que restrições realmente importam?
Que reação determinada escolha pode produzir?
Karl Weick, Kathleen Sutcliffe e David Obstfeld tratam esse processo de construção de significado pelo conceito de sensemaking: circunstâncias são transformadas em uma situação compreensível que orienta ação.
Isso não significa que toda leitura seja subjetiva ou arbitrária.
Significa que informação e interpretação não são a mesma coisa.
Duas pessoas podem receber dados semelhantes e atribuir importância diferente a determinados elementos porque estão construindo sentidos distintos para a situação.
A qualidade técnica da análise continua indispensável.
Mas a própria definição de qual problema está sendo resolvido já envolve leitura.
Plano 2: como o sistema lê a decisão
Uma decisão também não termina no instante em que é formalmente tomada.
Ela passa a produzir interpretação.
Conselho.
Executivos.
Equipes.
Investidores.
Parceiros.
Outros stakeholders.
Cada grupo pode tentar compreender não apenas o que foi decidido, mas o que aquela decisão sinaliza sobre prioridades, continuidade, autonomia, confiança, risco ou próximas escolhas.
Na perspectiva do sensemaking, significados organizacionais ajudam a orientar ação.
Na Governança Perceptiva™, a pergunta avança um passo:
o comportamento do sistema começa a mudar em resposta à leitura construída sobre a decisão?
Essa diferença é importante.
Uma interpretação pode existir sem produzir efeito relevante.
O interesse da governança aparece quando diferentes leituras começam a modificar informação, dissenso, validação, postergação ou previsibilidade.
Plano 3: o que acontece entre intenção e resposta do sistema
Decisões formais costumam ser acompanhadas por objetivos, justificativas e expectativas sobre aquilo que pretendem produzir.
Mas aquilo que o decisor pretende produzir não é a única variável disponível para quem precisa interpretar a decisão.
O sistema observa:
o que foi decidido;
como foi decidido;
quem participou;
quem foi ouvido;
o que mudou em relação a decisões anteriores;
como a liderança reagiu diante de questionamentos;
e que padrão aquela escolha parece inaugurar.
É nesse intervalo entre intenção e leitura que pode surgir um desalinhamento perceptivo.
A Governança Perceptiva™ se interessa por esse intervalo não para determinar qual leitura é “correta”, mas para observar o que o sistema passou a fazer com ela.
Uma decisão tecnicamente defensável pode produzir respostas diferentes
Considere um exemplo hipotético de fusão ou aquisição.
A due diligence foi realizada.
O valuation possui sustentação.
As sinergias foram identificadas.
A decisão de adquirir é tecnicamente defensável.
Isso ainda não permite antecipar integralmente como a organização adquirida interpretará o processo.
Quem recebeu informação primeiro?
Quem deixou de participar de decisões que antes integrava?
O que a permanência ou saída de determinados executivos passou a sinalizar?
Como dúvidas foram respondidas?
Em que momento começaram a aparecer novas validações, silêncio, postergação ou proteção?
É perfeitamente possível que nenhuma dessas questões produza problema.
Também é possível que algumas comecem a reorganizar comportamento.
A análise técnica responde se determinada aquisição faz sentido segundo os critérios utilizados.
A leitura perceptiva procura observar como o sistema humano está começando a responder àquilo que está sendo construído.
São perguntas diferentes.
Competência técnica não elimina vieses, emoção ou interpretação
As referências mobilizadas neste artigo não sustentam a generalização de que líderes técnicos sejam, por definição, piores em leitura de contexto.
Também não sustentam que quanto maior a especialização, menor a capacidade perceptiva.
O ponto é mais simples.
Competência técnica não retira o decisor da condição humana.
Expertise não transforma uma decisão complexa em cálculo puramente mecânico.
Julgamentos continuam sendo realizados sob incerteza.
Emoções continuam podendo influenciar escolhas.
Circunstâncias continuam precisando ser interpretadas.
E outras pessoas continuam atribuindo significado ao comportamento de quem decide.
Por isso, excelência técnica e leitura perceptiva não são concorrentes.
Uma não substitui a outra.
Arquitetura da Percepção™ e Governança Perceptiva™ observam escalas diferentes
A Arquitetura da Percepção™ concentra-se no nível individual.
Ela organiza como diferentes camadas de sinais contribuem para a forma como uma pessoa é percebida: pessoal, expressiva, interativa, contextual e social.
Em uma decisão executiva, essas camadas ajudam a compreender por que conteúdo e experiência produzida no outro não são exatamente a mesma coisa.
A Governança Perceptiva™ muda a escala.
Ela não pergunta apenas:
“Como esse decisor está sendo percebido?”
Pergunta:
“O que o sistema está fazendo em resposta à leitura que construiu?”
Essa passagem é fundamental.
Percepção individual pode ser interessante para desenvolvimento.
Percepção que começa a reorganizar decisão, informação, dissenso ou previsibilidade passa a ter relevância para governança.
O que muda quando a percepção entra na leitura da decisão
Incorporar a dimensão perceptiva não significa substituir análise por intuição.
Também não significa criar mais uma avaliação subjetiva de líderes.
Significa acrescentar perguntas sobre o funcionamento do sistema à análise de decisões de alta consequência.
Antes da decisão, pode ser útil observar se o fórum dispõe das informações relevantes, como o contexto está sendo interpretado e se diferentes leituras importantes conseguem chegar à discussão.
Durante o processo, interessa observar quem consegue tensionar alternativas, como o contraditório é tratado, quais informações ganham ou perdem espaço e que padrão de reação o fórum está construindo.
Depois da decisão, a questão deixa de ser apenas se a escolha foi executada. Passa a importar também se fluxos de informação mudaram, se novas validações surgiram, se decisões começaram a ser postergadas ou se a previsibilidade do sistema aumentou ou diminuiu.
Nenhuma dessas perguntas responde se a decisão técnica está correta.
Elas tornam visível outra dimensão do problema.
Percepção como questão de governança
Nem toda percepção organizacional é assunto de governança.
Pessoas interpretam umas às outras continuamente.
Boa parte dessas interpretações não possui consequência sistêmica.
A questão muda quando uma leitura compartilhada começa a alterar o funcionamento do sistema decisório.
Informações deixam de chegar.
Discordâncias mudam de lugar.
Validações informais surgem.
Responsabilidades ficam ambíguas.
Decisões começam a esperar.
Nesse momento, o problema já não é apenas interpessoal.
Ele passa a afetar a forma como a organização decide.
É nesse ponto que a Governança Perceptiva™ propõe uma camada estruturada de leitura.
Não para substituir os mecanismos formais existentes.
Nem para psicologizar lideranças.
Mas para tornar observáveis padrões humanos que podem adquirir relevância para risco e decisão antes de se transformarem em consequência mensurável.
A Auditoria de Exposição de Sinais é o instrumento utilizado pelo campo para organizar a leitura desses padrões.
O Delta Perceptivo, por sua vez, representa o desalinhamento entre a intenção de sinal de um fórum decisório e a leitura que o sistema constrói em resposta.
Nenhum dos dois determina o que a organização deve fazer.
A função termina na leitura.
A decisão começa depois.
Competência técnica e percepção são dimensões complementares
Este artigo não é um argumento contra competência técnica.
Em posições executivas de alta responsabilidade, ela é frequentemente condição indispensável.
A questão é outra.
Um sistema decisório complexo não trabalha apenas com a qualidade intrínseca de uma análise.
Ele também precisa:
interpretar o contexto;
integrar informação;
construir significado;
discordar;
formar expectativas;
e agir.
A literatura comportamental mostra que julgamento humano sob incerteza não é equivalente a cálculo formal.
A literatura sobre emoção mostra que afeto participa dos processos de escolha.
A literatura organizacional sobre sensemaking mostra que significados construídos dentro das organizações ajudam a orientar ação.
A contribuição da Governança Perceptiva™ está em reunir essa preocupação em torno de uma pergunta de governança:
quando a leitura construída sobre pessoas e decisões começa a modificar o comportamento do sistema?
É aí que competência técnica deixa de ser a única dimensão relevante.
Não porque tenha perdido importância.
Mas porque uma boa análise ainda precisa existir dentro de um sistema humano capaz de recebê-la, tensioná-la, interpretá-la e agir a partir dela.
Referências
D’OLIVAR, R. A Arquitetura da Percepção: Como construir intencionalmente a forma que você existe na mente do outro. Perceptio Editora, 2025.
D’OLIVAR, R. Perceptive Governance: A Proposal for a New Field in the Anticipation of Human Risk in Organizational Systems. SSRN, 2026. DOI: 10.2139/ssrn.6271361.
LERNER, J. S.; LI, Y.; VALDESOLO, P.; KASSAM, K. S. Emotion and Decision Making. Annual Review of Psychology, v. 66, p. 799–823, 2015. DOI: 10.1146/annurev-psych-010213-115043.
MAYER, J. D.; SALOVEY, P.; CARUSO, D. R. Emotional Intelligence: Theory, Findings, and Implications. Psychological Inquiry, v. 15, n. 3, p. 197–215, 2004. DOI: 10.1207/S15327965PLI1503_02.
TVERSKY, A.; KAHNEMAN, D. Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases. Science, v. 185, n. 4157, p. 1124–1131, 1974. DOI: 10.1126/science.185.4157.1124.
WEICK, K. E.; SUTCLIFFE, K. M.; OBSTFELD, D. Organizing and the Process of Sensemaking. Organization Science, v. 16, n. 4, p. 409–421, 2005. DOI: 10.1287/orsc.1050.0133.
Ricardo D'Olivar é cientista do comportamento, autor de A Arquitetura da Percepção e criador da Governança Perceptiva™, campo dedicado à leitura de como sinais humanos afetam previsibilidade, risco e valor em sistemas de decisão. Fundador da Clarear.Org e Professor na FIA Business School.
Perguntas frequentes sobre por que a competência técnica não basta: o papel da percepção na decisão executiva
A dimensão perceptiva é o mesmo que inteligência emocional?
Não. Na tradição de Mayer, Salovey e Caruso, inteligência emocional é tratada como um conjunto de habilidades relacionadas a perceber emoções, utilizá-las para facilitar o pensamento, compreendê-las e gerenciá-las. A dimensão perceptiva, como utilizada neste artigo, não descreve uma competência emocional individual. Ela observa como sinais, contexto, decisões e comportamentos são interpretados e que efeitos essa interpretação passa a produzir no outro ou no sistema. Essa é a diferença central. Uma pessoa pode apresentar alta capacidade de percepção e regulação emocional e, ainda assim, emitir sinais que sejam interpretados de maneira diferente da pretendida. Da mesma forma, um sistema pode responder a uma decisão com postergação, novas validações ou mudanças nos fluxos de informação sem que exista qualquer dificuldade de inteligência emocional por parte do líder. Emoções podem participar da leitura perceptiva. Mas são apenas uma das variáveis possíveis. Inteligência emocional diz respeito a capacidades relacionadas às emoções. A dimensão perceptiva observa a relação entre sinais, interpretação e resposta. No nível da Governança Perceptiva™, a pergunta torna-se ainda mais específica: essa interpretação começou a modificar o comportamento do sistema decisório?
Isso significa que líderes muito técnicos têm maior risco perceptivo?
Não há base, nas referências mobilizadas neste artigo, para essa generalização. Especialização técnica não determina, por si só, maior ou menor capacidade de leitura perceptiva. A tese é apenas que competência técnica não elimina os componentes cognitivos, afetivos e sociais presentes em decisões humanas.
Uma decisão tecnicamente correta pode produzir uma resposta organizacional ruim?
Pode. Mas isso não significa que a percepção seja necessariamente a causa. Execução, recursos, estrutura, incentivos, condições externas, comunicação, cultura e diversas outras variáveis podem interferir no resultado. A contribuição da Governança Perceptiva™ é observar uma delas: se a leitura construída sobre sinais e decisões começou a modificar o comportamento do sistema.